O lugar em que vivemos (e nos sentimos reais): notas sobre OS GEMEOS e a criatividade em Winnicott.

*por Gustavo Vieira: psicólogo clínico e psicanalista, doutor em psicologia clínica pela USP. Autor do livro “Winnicott e o narcisismo primário” (Editora Juruá). Instagram: @gustavov.psi

Tive a oportunidade de visitar pela segunda vez a exposição “Segredos” dos artistas OSGEMEOS. Um ano depois de conhecer os trabalhos na Pinacoteca de São Paulo1, vi a exposição com muito mais calma no Museu Oscar Niemeyer, junto ao meu irmão e minha sobrinha, o que me possibilitou outros olhares.

Acompanhado da minha família fiquei, dessa vez, vendo por mais tempo os objetos e fragmentos da história de Gustavo e Otávio, antes de serem conhecidos como OSGEMEOS. Logo no início da exposição, somos apresentados aos desenhos feitos pelo avô e pelos irmãos, assim como encontramos uma pintura realizada pela mãe dos artistas. Outro elemento interessante são os “recados-broncas” enviados pela professora sobre a falta de dedicação dos irmãos à caligrafia em seus tempos de escola.

Esse “ponto de partida” em um ambiente que parece ter fomentado a criatividade e facilitado – em alguma medida – a não complacência às expectativas sociais parece estar estreitamente relacionado a uma das propostas centrais dos OSGEMEOS: seus personagens transitam por um ambiente onírico chamado TRITREZ.

Imagem: detalhe da obra TRITREZ, de OSGEMEOS

Ao ler algumas entrevistas da dupla, é interessante notar que TRITREZ não é um conceito para ser explicado, mas algo experimentado pelos OSGEMEOS, que eles buscam comunicar por meio de seus trabalhos 2, 3. No entanto, entre as várias ideias que orbitam ao redor de TRITREZ, os artistas indicam que esse espaço está relacionado à três vidas: “antes de nascer, a presente e a infinita” 4. Para eles, esse é o “lugar” de onde surgem suas ideias, de onde eles vieram e para onde vão 2.

TRITREZ é representado nas obras dos OSGEMEOS como um espaço lúdico e multicolorido, que traz elementos da cultura popular e da arte de rua, assim como referências mescladas entre o mundo urbano e a natureza. Seus personagens não estão presos às convenções sociais, remetendo a experiências que podem ser vividas em estado de sonho.

TRITREZ me convocou a (re)pensar sobre a criatividade a partir do psicanalista Donald Winnicott. Para ele, o sujeito sentirá sua vida como real na medida em que é recebido por um ambiente que, desde o início, acolhe seus gestos criadores. Pensando a gênese da subjetividade nos primórdios da relação entre recém-nascido e mãe-ambiente, Winnicott propõe que o bebê não é passivo ao seio que lhe oferece alimento, mas é alguém que, concomitante e paradoxalmente, encontra e cria o seio da mãe5.

Partindo dessa ideia, Winnicott propõe que um ambiente suficientemente bom seria aquele que permite ser encontrado-criado pelo bebê, em uma coreografia de contato na qual os intentos formativos do ambiente não se impõem aos gestos espontâneos da criança. Para o psicanalista, embora o sujeito passe posteriormente a saber que o mundo era a ele preexistente, “o sentimento de que o mundo foi criado pessoalmente não desaparece”6

Mas como Winnicott relaciona estas primeiras experiências com a produção criativa – e artística – que os sujeitos sustentam ao longo da vida? Na perspectiva do psicanalista, o recém-nascido possui inicialmente uma dependência quase absoluta dos cuidados ambientais (as várias pessoas que o ocupam a “função materna”). Na medida em que o bebê cresce e adquire outras capacidades, a mãe-ambiente permite (de forma saudável) algumas descontinuidades nas relações de cuidado com a criança. Neste espaço propiciado pela “falta” da mãe-ambiente, a criança passaria a fazer uso de alguns objetos ou vivências (p.ex. cantarolar um som), permitindo uma experiência que, embora distinta do vínculo mãe-bebê, manteria certa continuidade ao sentimento de onipotência-criadora fundamental. Seria então esse espaço intermediário – denominado por Winnicott como o lócus dos “fenômenos e objetos transicionais” – a matriz da brincadeira, da arte e da cultura, mas, acima de tudo, a base de uma vida autêntica, que o sujeito sente valer a pena ser vivida.

A tríplice dimensão de TRITREZ – a nossa origem, o presente e o porvir – me convocaram a pensar sobre como nos relacionamos com nossa história de sujeitos-criadores e também refletir sobre nossas posições pessoais no sentido de morar (ou ao menos visitar) esse necessário “lugar” onírico, que faz com que a “realidade” possa ser sentida como real.

Uma resposta dos OSGEMEOS em uma entrevista realizada há alguns anos é bastante instigante: “Cada um tem o seu próprio TRITREZ. Mas muitos não têm coragem de mexer nele. É um abismo, dá medo mesmo. […] É difícil se jogar.” 7. Pensar essa frase com Winnicott nos leva a considerar a dimensão (ou “profundeza”) da ausência/falta que precisamos encarar para continuarmos, na vida adulta, cultivando um espaço de experiência que seja transicional e que permita que nos sintamos reais e criadores.

Assim como OSGEMEOS, concordo que “cada um tem seu próprio TRITREZ”, pois o que nos mobiliza – e torna a vida pulsante e interessante – é absolutamente singular e está no âmago do que é o sentimento de self (si-mesmo). Um percurso pessoal de análise que considere tal dimensão pode ser, assim como outras experiências artísticas e culturais, um apoio importante em uma trajetória de vida que nos permita frequentar – e eventualmente brincar e criar em – nosso TRITREZ.

Imagem: foto da exposição “Segredos” no MON

(1) A exposição dos OSGEMEOS na Pinacoteca de São Paulo pode ser visitada virtualmente por meio do link: http://pinacoteca.org.br/tourvirtualosgemeos/

(2) Entrevista para a Istoé, publicada em 17/05/2021;

(3) Entrevista para o Conversa com Bial (Globo), publicada em 06/04/2021;

(4) Reportagem publicada por Tato Coutinho na Medium;

(5) Em uma leitura contemporânea de Winnicott, é importante considerar que a função materna pode ser ocupada por uma ou mais figuras cuidadoras, distintas da genitora biológica e de diferentes sexos. Nesse sentido, o termo seio pode tematizar outros recursos (p.ex. mamadeira) necessários ao atendimento das necessidades do bebê.

(6) Citação de Winnicott, na obra “Natureza Humana”.

(7) Entrevista para a Revista Trip, publicada em 15/07/2013.


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