– Os devaneios de Thom Yorke (ou o videoclipe vivido como um sonho)

Uma das bandas mais ousadas e criativas dos últimos tempos, o Radiohead lançou um videoclipe ano passado da música Daydreaming (devaneios ou sonhos diurnos), sob direção do prestigiado Paul Thomas Anderson. Eis a versão original do trabalho:

 

Até aí, temos um videoclipe aparentemente esquisito, no qual é possível captar alguma sensação de inquietude e angústia do protagonista, mas nem acompanhando a letra da música apreende-se um verdadeiro sentido. O que esse videoclipe representa?

Estudando relatos pessoais de Thom Yorke (vocalista do Radiohead e personagem do videoclipe) e outras tantas pesquisas feitas por fanáticos da banda, um outro fã (Rishi Kaneria) fez este outro video dissecando o sentido por trás de Daydreaming:

Os mínimos detalhes presentes no videoclipe se articulam quando examinados com atenção e revelam o conflito emocional que o vocalista da banda atravessava naquele momento: half of my life / half of my love. Metade de sua vida dedicada ao casamento com a mãe de seus filhos, e que acabara de terminar, metade de sua vida também dedicada à sua banda, realização profissional cheia de exigências que dificilmente se conciliam com sua vida amorosa e familiar. O número 23, referente aos 23 anos de casamento e de banda desdobra-se numa polissemia de sentidos e aparece sutilmente em quase todas as cenas do vídeo, assim como referências à figura feminina, à figura materna e à história do Radiohead (capa de discos, cenários de outros videoclipes, jogos de palavras com letras das músicas).

Thom Yorke parece buscar a saída (Exit) mas não a encontra, em cada nova sala que entra o conflito se recoloca, com todas as referências à sua vida como artista, marido e pai de família.  É só quando visto de trás pra frente que o vídeo apresenta um caminho elaborativo, de libertação do conflito.

É bonito de ver toda a capacidade de “auto-análise” do líder do Radiohead que, com o auxílio de um exímio diretor, transforma em arte aquilo que poderia produzir somente sofrimento e sintoma. Ao efetuar essa transposição ao plano da arte, pode-se aproximar do conflito, nomeá-lo, desenrolá-lo; é bastante daquilo que se faz em uma análise. Mais especificamente, é como se trabalha um sonho em análise, algo que desperta bastante curiosidade nas pessoas e divergências com relação a outras abordagens (muita gente, por exemplo, prefere buscar significados universais e/ou premonitórios para os sonhos). O método freudiano postula que o sentido do sonho não está em seu conteúdo manifesto, ou seja, naquilo que está aparente – tal como no videoclipe. Agora, se o sonho (e o videoclipe) são vistos nos seus mínimos detalhes, mesmo aqueles aparentemente irrelevantes, e quando se articulam à vida pessoal e pregressa do sonhador, o conflito e o sentido do sonho podem emergir.

Bruno Espósito, Bruno Mangolini e Tomás Bonomi.

 

 

1 Comment

  1. Fernanda Rios on março 8, 2017 at 10:50 pm

    Gostei do post, caros colegas! É sempre um prazer observar as reverberações do inconsciente. Eu adoro a banda e tb os projetos solo do Thom York como o Atoms for Peace e o disco The Eraser. Não sabia que ele atravessava um momento de ruptura importante. Salve os processos artísticos, não é mesmo? Sabemos que as rupturas podem ser momentos de grandes sacudidas. Forte abraço! Fernanda Rios.

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