PROJETO VERÃO: como a insatisfação corporal transtorna o seu comer

por Camila Junqueira*

Você está satisfeito com seu peso corporal? Ou ainda está pensando nos quilos que ganhou
nas últimas férias? Pensando nos quilos que quer perder para o próximo verão?
Você já parou para pensar de onde vem sua insatisfação corporal e o quanto isso altera sua
relação com a comida?
O estigma do peso, preconceito ligado a pessoas com corpos maiores, é um nome novo para
um problema velho. Não é de hoje que as pessoas gordas são vistas como preguiçosas,
desleixadas e doentes (Jean-Peirre Poulain, 2013). O fenômeno da gordofobia se enraizou na
subjetividade muito antes de ser nomeado; no entanto, sua nomeação foi, sem dúvida, um
passo fundamental para que o sofrimento que acompanha os sujeitos com corpos maiores
possa ser reconhecido, validado e tenha, sobretudo, sua origem questionada e combatida. A
hashtag #lutecomoumagorda tem ganhado adeptos nas redes sociais e problematizado a
questão.
A silhueta ideal das mulheres foi sendo alterada de tempos em tempos. A década de 60 ficou
marcada pela ascensão da modelo Twiggy e sua ausência de curvas, e desde então, o corpo
feminino exemplar é cada vez mais esguio, e mais recentemente, esguio e musculoso. Naomi
Wolf, jornalista americana, em seu livro “O mito da beleza: como as imagens de beleza são
utilizadas contra as mulheres” (2002) relaciona a diminuição do IMC (índice de massa corporal)
da mulher ideal com o surgimento da pílula anticoncepcional. Para essa autora a liberdade
sexual que a pílula trouxe foi rapidamente cerceada por um padrão estético impossível, que
oprime e ocupa as mulheres. Ela escreve: “Quanto mais fortes as mulheres se tornassem em
termos políticos, maior seria o peso do ideal de beleza sobre seus ombros, principalmente para
desviar sua energia e solapar seu desenvolvimento” (p.16). Recentemente a credibilidade de
Naomi Wolf foi questionada por ela fazer coro com o discurso anti-vacina de muitos
americanos que prezam pela liberdade individual em detrimento do pacto social. Ainda que a
autora possa apresentar pontos de vista distantes de um ideal coletivo, me parece que a sua
reflexão, de que a pressão estética impediria as mulheres de se dedicarem à excelência no
mundo do trabalho e da política, pode nos ajudar a compreender a baixa representatividade
feminina nessas áreas.
Aliás, antes de Naomi Wolf, a psicanalista inglesa Susie Orbach já havia procurado alertar as
mulheres acerca dos efeitos da pressão estética em seu livro Gordura é uma questão
feminista: um manual de auxílio para quem come sem parar (1978). Talvez tê-lo classificado
como um manual de autoajuda não tenha contribuído para que o livro tivesse a repercussão
que merece entre os estudiosos das questões sociais e emocionais ligadas à alimentação. Susie
Orbach relaciona a gordura feminina à posição social da mulher como uma cidadã de segunda
classe. A gordura resguardaria a mulher da competitividade e da agressividade, características
mais bem vindas no mundo masculino, além de protegê-las em certos casos da sexualidade:
“Muitas mulheres sentem alívio em não ter que se conceber como pessoas que têm sexualidade.

A gordura as retira da categoria de mulher e as coloca no estado andrógino de
amigonas” (Orbach, p.43).
Mais recentemente temos visto a pressão estética crescer entre os homens. A eles parece que
já não basta mais o status conferido pelo mundo do trabalho, traduzido em poder e dinheiro.
Cada vez mais, possivelmente movidos pelas mídias sociais, tal como as mulheres, se
preocupam em exibir seu bronzeado e seus músculos, além de corrigir supostas imperfeições
com dietas e procedimentos estéticos, incluindo cirurgias plásticas. Uma pesquisa do IBOPE
publicada pelo G1 (em 21 de julho de 2020) mostrou que nos últimos cinco anos, subiu de 5%
para 30% o número de pacientes do gênero masculino que se submetem a técnicas invasivas.
A pressão estética movimenta a indústria bilionária da beleza, que fatura com a sua
insatisfação corporal, e não está sozinha na tarefa de enraizar na cultura uma ‘lipofobia’- para
usar um termo difundido por Jean-Pierre Poulain, sociólogo francês que estuda a “Sociologia
da Obesidade” (2013). Estima-se (Euromonitor) que em 2019 o faturamento da indústria da
beleza no Brasil chegou perto de 30 bilhões de dólares. No entanto, a indústria farmacêutica e
a indústria de alimentos também lucram com a sua insatisfação corporal e com o seu
sentimento de incompetência para julgar o que deve comer. Quanto mais afastados ficamos
das sensações corporais de fome e saciedade, e das heranças alimentares de nossas
comunidades, mais vulneráveis ficamos à cultura da dieta, que nos leva a consumir todo tipo
de produto em busca de um ideal corporal inalcançável. A desconstrução das tradições
alimentares foi amplamente examinada por Claude Fischler (2010) numa pesquisa realizada
em diversos países. Seus resultados apontam para uma relação entre uma epidemia de
obesidade e o comer individual, fortemente presente na cultura americana.
O comer transtornado é o resultado de tudo isso. O termo é relativamente novo e faz
referência à preocupação intensa com a alimentação e a forma física, que resulta em
sofrimento físico e emocional. As pessoas que apresentam um comer transtornado não
preenchem os critérios do DSM-V (Manual de Diagnóstico e Estatístico de Transtornos
Mentais), que delimita os transtornos alimentares (anorexias, bulimias, compulsão e
atípicos…). Entretanto, é possível que apresentem outros sofrimentos mentais que, se não
forem identificados e cuidados podem, com o tempo, preencher os critérios diagnósticos para
ansiedade e a depressão!

Foto de Polina Tankilevitch no Pexels


Pesquisas relativamente recentes (Alvarenga, et al, 2011; Brant, at al, 2019) estimam que o
comer transtornado atinge cerca de 40% da população feminina. Infelizmente não foram
encontradas pesquisas sobre o comer transtornado na população masculina, mas é possível
supor, considerando o aumento dos procedimentos estéticos, que também entre os homens
esse seja um fenômeno crescente.
O comer transtornado é influenciado pela pressão estética, mas também pelo nutricionismo e
pelo marketing nutricional. O nutricionismo é um termo cunhado por G. Scrinis através da
soma das palavras nutrição e reducionismo. O nutricionismo expressa a forma como a
sociedade e a indústria de alimentos reduzem as pesquisas em nutrição a regras dietéticas
baseadas em nutrientes isolados, nos afastando dos alimentos e dos aspectos culturais da
alimentação. Scrinis faz um alerta de como as pesquisas acerca dos efeitos dos nutrientes
sobre o corpo são apropriadas pelo marketing nutricional, mas também pela indústria do
emagrecimento, para vender produtos de baixa qualidade e soluções milagrosas. “A ideologia
do nutricionismo também serve, em última análise, aos interesses financeiros da indústria
alimentícia, de suplementos dietéticos e de produtos relacionados com a perda de peso, ao

criar uma estrutura extremamente eficaz para a comoditização da nutrição e para um novo
mercado de nutrientes, de conhecimento nutricional e de produtos de engenharia nutricional”
(Scrinis, p. 41)
Nesse contexto, alimentos ultra processados de origem vegetal, numa subversão do
movimento plant based food, tem sido acrescidos de uma porção de substâncias químicas para
garantir sua textura, cor, sabor e validade. Esses são vendidos como aliados da saúde e
confundem quem procura ‘comida de verdade’. Confusos, nós passamos a nos sentir
comedores incompetentes (Claude Fischler, 2011), o que alimenta a nossa ansiedade
alimentar… e transtorna nosso comer.
Marion Nestle (2021), que não tem parentesco com a grande corporação, irá defender em seu
livro Uma verdade indigesta que a indústria alimentícia não pode financiar pesquisas cujos
resultados podem fazer aumentar ou diminuir as vendas de seus produtos. O conflito de
interesse entre as empresas financiadoras e os possíveis resultados das pesquisas influencia a
forma como esses resultados são divulgados e se serão omitidos. A relevância do marketing
nutricional para a nossa relação com determinados alimentos pode ser compreendida também
a partir da série Rotten produzida pela Netflix. No episódio ‘A guerra do abacate’ entendemos
que essa fruta passa a ser queridinha das dietas através de ações de marketing e planejamento
estratégico aplicado por décadas e patrocinado por produtores.
Uma parte das pessoas que tem seu comer transtornado irão desenvolver um quadro de
transtorno alimentar. Os transtornos alimentares podem se tornar bastante graves quanto aos
prejuízos para a saúde, com risco de morte. Do ponto de vista psicanalítico, compreendemos o
sintoma alimentar como fruto de uma injunção entre a cultura alimentar e estética atual e
certas fragilidades e modos de funcionamento do aparelho psíquico forjados a partir das
experiências da primeira infância, não apenas com a alimentação, mas das experiências
relacionais, constitutivas do sujeito.
Convido o leitor interessado em conhecer o que a Psicanálise tem a dizer quando comer é um
transtorno a obter mais informações sobre o curso de extensão do Instituto Sedes sobre essa
temática: https://sedes.org.br/site/cursos-sedes/codigo-8428/, e assistir o vídeo de
apresentação do curso: https://www.youtube.com/watch?v=ZS-GsxqCgjg. As inscrições podem
ser feitas até o dia 24 de março. Fica também o convite para conhecer outros textos e vídeos
meus no link: https://linktr.ee/camilajunqueira.98

*Camila Junqueira é psicanalista, doutora e pós-doutora pela USP, membro do Departamento de
Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae, professora e coordenadora de curso de extensão
sobre Problemáticas Alimentares.

Referências Bibliográficas:
Alvarenga, Marle et al (2011) Comportamento de risco para transtorno alimentar em
universitárias brasileiras, Rev Psiq Clín; 38(1): 3-7.
Brant, Lorenna et al (2019) Comportamento de risco para bulimia em adolescentes. Rev. paul.
pediatr. 37 (2) Apr-Jun.
Fischler, Claude & Masson, Estelle (2010) Comer: a alimentação de franceses, outros europeus
e americanos. São Paulo: Senac
Fischler, Claude (2011) A comida como objeto de pesquisa: entrevista.
http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0103-56652011000100014

Nestle, Marion (2019) Uma verdade indigesta: como a indústria alimentícia manipula a ciência
do que comemos. São Paulo: Editora Elefante.
Nunes, Gabriel (2020) https://gq.globo.com/Corpo/Saude/noticia/2020/07/procedimentos-
esteticos-em-homens-cresceram-30-nos-ultimos-cinco-anos-revela-pesquisa.html
Poulain, Jean-Pierre (2013) A sociologia da obesidade. São Paulo: Senac
Scrinis, Gyorgy (2021) Nutricionismo: a ciência e a política do aconselhamento nutricional. São
Paulo: Editora Elefante.
Wolf, Naomi (2002) O mito da beleza: como as imagens de beleza são utilizadas contra as
mulheres. Rio de Janeiro: Rosa dos Ventos.


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