Hoje temos a honra de ceder nosso espaço para Lia Novaes Serra. Lia é psicanalista, mestre e doutoranda pelo Instituto de Psicologia/USP.

***

Valorizar a vida, legalizar o aborto. De início, nossa petição pode parecer contraditória. Afinal, compreendemos habitualmente que aborto significa a expulsão voluntária ou involuntária de um feto antes do tempo. Ou seja, nessa acepção, socialmente partilhada, aborto significa o fim da vida. Mas, e se invertêssemos a proposição, e se afirmássemos que defender a legalização do aborto significa não a interrupção, mas a continuidade da vida.

É a vida que num curto espaço de tempo, com o susto da gravidez indesejada, e num completo estado de desorganização psíquica, encontra na clandestinidade a única saída. É a vida que encara o submundo das clínicas abortivas; introduz objetos perfurantes em seu próprio corpo; provoca hemorragias; faz uso de medicações sem prescrição; e, o mais grave: coloca em risco à própria vida para cessar uma gestação. Ainda assim, ela tem inúmeros motivos para realizar o aborto. É a vida, pela continuidade da vida.

Sem apoio ou proteção do Estado, a vida se torna irresponsável, puta, assassina. Se rica, tem, provavelmente, um aborto mais “seguro”. Paga à vista o procedimento em alguma clínica de alto padrão. Se pobre, a situação é radicalmente diferente. A cada nove minutos perdemos uma vida, pelo mundo afora, por consequência de um aborto induzido e mal sucedido. São feitos com agulhas, chás ou misoprostol – ainda vendido no mercado paralelo por diversas indústrias farmacêuticas. A diferença de classe aqui se faz presente. É a desvalorização da vida da Jandira, da Tatiana, da Elisângela e de tantas outras.

Contudo, se sobrevive e, por sorte, o dano físico for insignificante, ainda sim, a vida precisa conviver com o trauma psíquico. E o pior tratamento ao trauma é silenciá-lo. É preciso declarar com todas as letras: a aprovação do PL 5069 é um atentado contra a vida. Além de aumentar exponencialmente o número de mortes, de danos físicos e psíquicos, quer manter calado o sofrimento já existente de tantas vidas. Por isso, a luta pela não aprovação desse projeto de lei e, sobretudo, a luta pela legalização do aborto. Em favor da vida.

Obrigada pelo espaço carinhosamente oferecido, Conexões Clinicas. #agoraéquesãoelas.

 

 


Leia Mais

  • All
  • Educação e tecnologia
  • Filosofia e cultura
  • Psicanálise e clínica contemporânea
Homenagem a Manoel Tosta Berlinck no CEP.
“Causos clínicos”: quando a lei encontra o tratamento na saúde mental.
Clínica Underground: o pioneirismo de Sabina Spielrein
– À querida Silvana Rabello

Comentários

One Reply to “Vida clandestina”

Fernanda Rios

Dura realidade! Obrigada pelas palavras, Lia! Estamos juntas por um Brasil que ame de verdade as suas mulheres. Um abraço aos profissionais do Conexões, sempre ativo e atento. Fernanda Rios.

Responder

Deixe um comentário

Your email address will not be published. Required fields are marked *

Se inscreva para nossa Newsletter!

Nós enviamos as novas publicações do Conexões direto para sua caixa de email.