Embora pesquisas não comprovem benefícios do uso de cloroquina e hidroxicloroquina em pacientes com Covid-19, o debate político em torno desses medicamentos, muitas vezes liderado pelo presidente Jair Bolsonaro, coloca os médicos sob grande pressão. Segundo uma pesquisa da Associação Paulista de Medicina, 48,9% de quase 2 mil profissionais entrevistados relataram pressões de pacientes ou parentes para prescrever esses remédios sem comprovação científica. Relatos de intimidação também são comuns nas redes sociais.
Clóvis Arns, presidente da Sociedade Brasileira de Infectologia (SBI), chegou a ser ameaçado de morte nas redes sociais após a instituição publicar uma recomendação contra a cloroquina no dia 17. “Notícias falsas e informações sensacionalistas são inimigos que os médicos enfrentam simultaneamente à Covid-19”, diz um estudo da Associação Paulista de Medicina (APM).
A médica intensivista Bruna Lordão, de 32 anos, pediu demissão do Hospital Geral de Vila Penteado, em São Paulo, após ser chamada de “assassina” por parentes de um paciente a quem se recusou a prescrever cloroquina. “As pessoas não querem saber de pesquisa científica, querem saber o que o Bolsonaro tomou”, conta Bruna. “Foram os piores momentos da minha carreira.”

A Organização Mundial de Saúde (OMS) suspendeu testes com cloroquina e hidroxicloroquina após resultados mostrarem que elas “não reduziam a mortalidade dos pacientes”. Outro estudo, o Recovery, realizado no Reino Unido, também concluiu que não há efeito benéfico. Um estudo em 55 hospitais brasileiros, publicado na Science, confirmou que a cloroquina não funciona em quadros leves e moderados de Covid-19. Vários países já suspenderam o uso desses remédios devido aos riscos de arritmia cardíaca.
Mesmo assim, Bolsonaro anunciou nas redes sociais que estava tomando cloroquina após testar positivo para Covid-19. A politização desse debate levou à queda de dois ministros da saúde e tem consequências diretas no atendimento de pacientes, como mostra o levantamento da APM. O próprio Ministério da Saúde passou a recomendar seu uso.

“Pelo menos 69,2% dos entrevistados dizem que notícias falsas interferem negativamente, levando pessoas a minimizar o problema e não seguir recomendações de saúde”, destaca o estudo da APM. “Outros 48,9% relatam pressões por tratamentos sem comprovação científica.”
Patrícia Rocco, da Universidade Federal do Rio (UFRJ), diz que muitos pacientes chegam ao hospital já tomando cloroquina prescrita por médicos particulares. Prefeituras também têm distribuído “kits Covid” que incluem hidroxicloroquina, apesar da falta de comprovação científica.
Em Sertãozinho (SP), quatro infectologistas deixaram o comitê municipal contra o coronavírus após a prefeitura adotar a cloroquina no tratamento. O prefeito de Porto Feliz (SP) também adotou o medicamento desde o início da pandemia.
Chefe da infectologia da Unesp, Alexandre Naime Barbosa afirma que as pressões geralmente vêm de outros médicos, não da linha de frente. “São professores ou médicos mais velhos que não atendem Covid-19 e defendem a cloroquina nas redes sociais por ingenuidade ou má-fé”, relata Barbosa.

Cronologia:
– 4 de fevereiro: Pesquisadores chineses publicam na Nature que “Remdesivir e cloroquina inibem o novo coronavírus in vitro”.
– 20 de março: Pesquisadores franceses divulgam estudo positivo com hidroxicloroquina e azitromicina.
– 21 de março: Trump recomenda hidroxicloroquina e azitromicina.
– 23 de março: OMS lança o Solidarity Trial para testar medicamentos contra o coronavírus.
– 25 de maio: OMS suspende testes com cloroquina após estudo da Lancet apontar risco aumentado de morte e arritmia.
– 3 de junho: OMS retoma testes com hidroxicloroquina.
– 17 de junho: OMS suspende definitivamente os estudos com cloroquina e hidroxicloroquina por falta de benefícios.